TAC AMAZÔNIA 2017

img-20170421-wa0051Depois de muita aventura na lama para percorrer a BR 319, o restante do grupo, que chegou à Manaus de avião, juntou-se  conosco e começamos os preparativos para a Balsa. Alguns veículos foram revisar e demais aventureiros foram fazer turismo em Manaus. Nossa Balsa estava marcada para o dia 15, mas devido a consertos em algumas viaturas não podemos partir na data marcada, nova data agendada para dia 18/04.

img-20170420-wa0033No dia 18 começamos nosso deslocamento para a Balsa no Porto do Cimento, onde embarcaríamos nossas viaturas e montaríamos nossa tenda de acampamento e curtiríamos 30 horas de navegação até a cidade de Parintins. No final da tarde, todos no porto, gelo comprado, muita cerveja, carne e suprimentos. Tivemos um pequeno problema com a balsa, que estava bem carregada, o que impediria de montarmos acampamento, inviabilizando nossa ida, porém o proprietário da embarcação providenciou mais uma balsa para atracar na primeira e assim tínhamos uma balsa exclusiva para nossos veículos, onde montamos um layout proporcionando espaço para as barracas, nossa cozinha e a área da farra. Tudo pronto e partimos.

20170419_224138 Churrasqueira acesa, fogão preparando acompanhamento, cerveja gelada e começa uma noitada de jogar conversa fora e muita festa. Aliás, essas viagens de balsa são sempre animadas e servem para entrosar ainda mais o grupo. Alguns valentes bebedores foram até ás 03:00hs da manhã e outros já roncavam bravamente afastando os maus espíritos do Rio. Este ano tínhamos uma única mulher no grupo, a Silvia, que já participou em 2011 de uma TAC, mostrando que tem muita mulher aventureira que enfrenta desafios mais longos no meio de muitos marmanjos, mostrando que não deixa nada a dever a nenhum marmanjo, roncava em pé de igualdade com outros presentes. Pior pra mim, já que minha rede estava ao lado da barraca da Silvia.

20170421_213017A viagem de balsa foi muito tranquila, pela primeira vez em todos os anos que viajei de balsa pelos rios do norte, não choveu o que deixou a viagem bem proveitosa. Alguns, entre eles, passaram o dia seguinte de ressaca, muita água e rede pra descansar, além de um cafezinho forte feito pelo Dr. Google, apelido dado ao Zampa, com toda sua experiência e conhecimento geral, entendia do motivo do bode cagar em bolotas até como construir um reator de partículas sub atômicas capaz de afetar a força gravitacional de um buraco de minhoca e permitir a viagem no tempo. Brincadeira a parte Dr. Google faz um ótimo café. Sonho Meu, não fique com ciúmes.

img-20170424-wa0041

Chegamos a Parintins e fomos recepcionados por uma chuva forte, após estiagem partimos para um lanche e direto para a Balsa da Vila Amazônia. Duas balsas levaram nossos 10 veículos, chegamos à Vila e arrumei um guia e ajudante, pelo menos para nos levar até um trecho onde começaria o Ramal de acesso ao Ramal onde estive em 2012, além de ajudar no manejo do facão no mato, abrindo os trechos fechados ou fazer desvios onde a estrada havia sido obstruída por copas de árvores gigantes.

img-20170424-wa0066Ainda era cedo quando começamos a adentrar no ramal, que a cada metro ficava mais fechado, somente motos andavam naquele lugar, havia muito tempo que nenhum carro varava de um lado a outro naquele Ramal. Fomos trabalhando com machados e facões até chegar ao primeiro grande obstáculo. Havia uma passagem em Y, onde do lado direito o carro enroscava em muitos galhos e um tronco grande, resolvemos cortar com a motosserra uns troncos caídos no lado esquerdo, e abrir uma passagem estreita, só que o solo é muito escorregadio, não tem trilha de carros, e quando começamos a andar para frente e para trás cria-se um trilho em um piso tão escorregadio quanto sabão. Ai Rachadinha, apelido da minha pick-up Toyota, escorregava e batia a porta direita em uma árvore, e foi assim em algumas tentativas, então resolvemos usar o guincho puxando o carro para esquerda e passar sem amassar a lateral na arvore. Guincho amarrado em uma árvore enorme, com tronco com pelo menos 1 metro de diâmetro, guincho acionado e escuto o barulho da arvore quebrando e deitando para cima do carro, tensão absoluta, todos correm, carro preso pelo guincho, libero o guincho e a árvore retorna um pouco, balança, todos correram, gritava para soltarem o guincho da árvore, pessoal com medo gritando para que eu saísse do carro, observei que a arvore, apesar de balançar não fazia o som de estar quebrando, gritava para soltarem o guincho, porta aberta para pular caso a arvore resolvesse cair, pelo tamanho destruiria meu carro e o Troller de Dumbo que estava ao lado. Não lembro quem soltou o cabo do guincho, só sei que enchi o motor do carro, engatei uma ré, amassei as duas portas, quase arranco o retrovisor, mas pulei fora com o carro. A arvore, bem, ela ficou ali, assistindo depois cada carro passar com dificuldades e usando guincho em outra arvore, mas o medo de que batesse um vento era enorme ou simplesmente chover, poderia cair a qualquer momento. Depois muitas risadas, seguimos em frente, a equipe que desbravava, o restante no trabalho de conseguir passar na bagaceira que íamos deixando.

img-20170424-wa0031Após vencer este obstáculo um tanto temeroso, chegamos a outro obstáculo, bem imponente. Uma arvore enorme caíra exatamente no meio da estrada, exigindo que abríssemos uma picada lateral no comprimento da mesma. Trabalho de facões, motosserra e vontade de seguir em frente. Já era meio da tarde, pensava em acampar ali mesmo, afinal era uma área descampada devido à queda da arvore, mas passei primeiro e resolvi seguir em frente e ver até onde iria ou se acharia uma clareira para acampar. Cada metro que seguia em frente era o metro que não poderia voltar, afinal dá ré em 10 veículos dentro da mata fechada, piso escorregadio era quase impossível, então eu, os Novos Baianos (apelido dado a equipe do Troller que vinha logo atrás), Biju e Galego na X-terra, atrás dos Baianos e Newton e Dr. Google na Triton logo atrás, continuávamos seguindo em frente. Nós éramos a equipe que estava abrindo caminhos.

20170422_114356No grupo tínhamos um “super jipe”, um Jipe Toyota com pneus 40” que estava no grupo da frente, mas estava deixando o suco do trecho ruim para os demais veículos e precisou ficar em ultimo na fila. Para veículos curtos o trajeto era menos penoso, mas para as pick-ups as avarias eram grandes, amassados, pedaços de lanternas, retrovisores arrancados, parachoques rasgados e arrancados, etc, verdadeiras cicatrizes da guerra enfrentada.

img-20170424-wa0067A noite foi chegando, cansaço, mas o espirito de superação ainda estava forte, como referência uma marcação no meu GPS de 2012, esse era o objetivo, chegar naquele ponto. Foram muitas horas de trabalho braçal, às vezes voltava para o carro bufando de tão cansado do trabalho com a motosserra. Tínhamos três, uma estava meio inoperante, então a minha e a de Dr. Google, pequena, mas eficiente no corte das arvores menores para abrir desvios e reabrir a estrada e a minha para corte dos troncos grandes e de quebra um banho de pó de madeira, mas quem disse que existe recompensa em sofrimento.

img-20170427-wa0001Quedas constantes, piso escorregadio demais, além de muitos galhos para nos ferir, muitos cortes superficiais, aranhas, preocupação com as cobras e às vezes alguns ataques desonestos de formigas ninjas. Assim fomos entrando pela madrugada com muito trabalho, o desafio era achar um local para acampar, até achar algo meio que parecido com espaço mais livre, que coube cinco viaturas, demais ficamos na estrada mesmo, aliás, no que seria uma estrada. Cansaço era grande, nem todos fizeram comida, maioria apagou, outros dormiram no carro. Os Novos Baianos fizeram uma janta, divida comigo e o Sapinho ou Cid, como era conhecido o ajudante que peguei em Vila Amazônia, o olhos eram iguais do sapinho que tenho na porta do meu carro, uma caricatura em pessoa, mas um bom ajudante. Tomei um banho, rede armada, a minha ao lado da de Dumbo e do Sapinho, pelo menos nenhum de nós ronca.

img-20170424-wa0042No acampamento improvisado alguns já dormiam, outros comiam e Tatá, Zeca de Liandro, armava sua rede a 4 metros de altura do solo, segundo ele por causa das onças, mas acho que era para ficar longe da inhaca de quem não tomou banho. Como fomos dormir quase três da manhã, em poucas horas o Sol nascia, uma chuvinha fina ao longe, o som maravilhoso da mata ao raiar do dia, só quem conhece sabe do que estou falando, macacos Bugio pulando nas arvores e gritando, araras sobrevoando em casais, som de arvores caindo ao longo de uma rajada de vento que apareceu após a neblina se dispersar. Sinceramente não existe nada mais renovador para alma do que acordar em meio a este belíssimo caos da mãe natureza. É uma energia fenomenal que absorvemos, e quem consegue entender isto aproveita mais este momento. Ainda mais depois de um dia extremo e cansativo, onde muitos trabalham exaustivamente, pessoas que contribuíram com seu sangue para avançarmos metro a metro aquele Ramal abandonado, precisavam muito absorver essa energia que a selva nos proporciona. Aqui um grande aplauso a Dr. Google com sua motosserra, Biju, Galego, Dunbo, Detona, Montanha, Jorge dando sangue, até Lulinha trabalhou exaustivamente. Jorge depois agradeceu a oportunidade de ver Lulinha trabalhar, pois segundo ele Lulinha não bate um prego no sabão, pense numas figuras esses dois discutindo. A TAC é acima de tudo uma grande família.

img-20170424-wa0040Um café rápido e enquanto o acampamento se acordava e se organizava saímos à frente, a equipe de desbravamento, mas cerca de 500 metros encontramos outra enorme arvore caída e sem achar nenhum sinal da estrada, apenas uma trilha de motos, realmente não passa carro ali faz muito tempo. Tínhamos combustível, tínhamos motosserra, tínhamos comida, mas dessa vez começamos a ficar sem água de beber, alguns participantes acordaram muito cansados, desestimulados com o trabalho pesado e querendo retornar. Mais uma vez criei igual a 2012, uma equipe para seguir a pé e ver o que tínhamos pela frente, segundo meu GPS estava a 4,5km em linha reta do meu último ponto de 2012, se a estrada permanecesse no nível de dificuldade que estava até então seriam pelo menos um dia e meio até atingir esses 4,5km e claro continuar a reabrir o trecho, afinal era uma estrada que só anda motos. A equipe andou com GPS por cerca de meio quilometro e retornou, a noticia era de que havia obstáculos grandes e que provavelmente demoraria mais do que o esperado e a preocupação era água potável. Reuni a equipe de apoio e decidimos retornar para pegar outra estrada e nos levaria para Itaituba ou Juruti, decidira depois o roteiro, já que estes são mutáveis.

img-20170426-wa0212No retorno encontramos um caçador que informou que a estrada estava melhor, mais aberta, cerca de 8 km depois de onde nós paramos e se dispôs a seguir com mais outro amigo nos auxiliando, o que reduziria nosso trabalho, visto que muitos estavam exaustos do trabalho braçal. Seguimos para o sitio do Sr. Paulo, onde organizaríamos o retorno para mata, não todos, alguns estavam preocupados com as datas e outros com seus veículos, visto que algumas porradas na suspensão deixaram um certo medo de que seus veículos viessem a quebrar no meio da selva, como por exemplo a Hilux de Marcão que bateu em um tronco e quebrou o terminal de direção, por sorte Meia Foda havia levado um de reserva para sua Hilux.

img-20170426-wa0208No retorno para o Sitio do Paulo a coisa não foi tão fácil como se poderia imaginar, tudo bem que a trilha estava aberta, mas o retorno virou um grande atoleiro em certos pontos, escorregadio, fazendo os veículos se chocarem com as arvores, muito trabalho de guincho, trabalho de equipe, mas uma grande aventura Off Road com muitas cicatrizes de guerra.

No Sítio do Paulo, que nos disponibilizou sua casa, um barraco com uma tenda de lona azul, para montarmos nossas barracas e redes e nos proteger da chuva, aliás, fiquei com medo de armar minha rede, a estrutura parecia muito frágil, mas o louco do Marcon fez um teste, colocou Detona com seus 120kg deitado na rede e pulou em cima com seus 100kg, o barraco empenou um pouco, a madeira rangeu, mas não caiu, foi tenso, mas foi um teste eficaz. Pessoal gourmet mandando vê no fogão a lenha, cerveja gelada, água potável estava acabando, mas cerveja, essa não falta. Silvia inaugurou a noite de roncos, todos conversando e ela roncando, depois Dr. Google, no final das contas desmanchei minha rede e amarrei no meu carro e no de Marcon, era impossível dormir com aquela sinfonia, nem com o iPod com som alto escapava de escutar os roncos ecoando naquela tenda, além do mais nada melhor do que dormir olhando um céu estrelado, momentos especiais de uma aventura como essa.

img-20170424-wa0043No café da manhã o grupo de três veículos se preparavam para seguir de volta para Vila Amazônia e pegar o rumo para Itaituba, demais esperávamos o caçador retornar para seguirmos de volta para selva fechada e recomeçar os trabalhos de avançar. A espera foi longa, o caçador farrapou, não veio, o Seu Paulo se prontificou a arrumar outra pessoa, mas o calor e o desanimo tomou conta do grupo, a decisão então ficou em uma votação, onde eu não teria voto e a decisão foi de tomarmos outro rumo para Juruti e de lá Santarém onde faríamos o ultimo trecho da expedição que era a TransUruará.

img-20170424-wa0046Seguimos para uma vila no caminho da Balsa de Juruti Velha, almoçamos, era um domingo, a vila estava em festa, musica ao vivo, galinha cabidela, cerveja e seguimos para Juruti Velha, 90% de estrada piçarrado e no começo da noite estávamos na balsa para atravessar em direção a Usina da Alcooa e depois seguir para Juruti, onde chegamos cerca de 23:00h, todos no hotel para descansar e no dia seguinte seguir para a balsa no porto de Aninduba e pegar o ferry para Santarém, 2:30hs de um belo passeio. Nesse meio tempo a turma de três veículos estavam enfrentando a TransJuruti para Itaituba, mas não conseguiram passar, as erosões eram gigantescas e exigiria a construção de algumas pontes, trechos muito alagados, essa TransJuruti é uma trilha muito bonita e bem Off Road de se fazer, mas é preciso estar disposto a trabalhar, como estavam em menor número acharam por bem retornar para Juruti e pegar uma balsa para Santarém, foi o que fizeram.

20170422_000423Chegamos a Santarém e fomos descansar em Alter do Chão, como sempre no belíssimo hotel Beloalter, onde descansamos por dois dias e ficamos sabendo da aventura e desventura da turma que retornou para Juruti. Quando chegaram a Santarém resolveram algumas pendencias nos carros e se dividiram, um carro seguiu para Bahia, outro pela 163 para o Rio de Janeiro e o terceiro se juntou novamente com nosso grupo e seguiu para TransUruará.

img-20170427-wa0075 Partimos para Uruará cedo, cerca de 9:00hs estávamos passando pela hidroelétrica e pegando a TransUruará, mas cerca de 2km depois do entroncamento da estrada o feixe de molas da Frontier de Liandru quebrou a mola mestre, foram 03h de arrumação. André, já tinha experiência em remendar feixe de molas, adquirida com sua Toyota Jipe, então junto com Liandro conseguiram improvisar com correntes uma estrutura para segurar o feixe e um uma cinta catraca travar o diferencial para ele não correr, catraca que vez outra precisava ser apertada, mas funcionou perfeitamente até chegar em Uruará e resolver no dia seguinte.

img-20170428-wa0036Voltando a estrada seguimos em um piçarrão grande pelos primeiros 120km, três dias sem chover nesse trecho e a estrada estava perfeita, porém a informação era de que nos últimos 70km antes de Uruará estavam os poções e atoleiros, ou seja, a parte boa da estrada e assim foi! No primeiro atoleiro havia um caminhão de madeira sendo puxado por um trator, deixou uma estrada perfeita para passarmos, facão alto e pé no porão, seguimos para mais um e mais outros e fomos brincando nos atoleiros. No ultimo trecho antes de Uruará existem algumas subidas e descidas íngremes e escorregadias, havia uma fila de caminhões carregados de madeira antes do começo dessas serras e a frente raios cruzando o céu escuro, caiu um diluvio o que impedia de continuarem pela estrada, seguimos debaixo de muita chuva até próximo a Uruará, foi um dia divertido de Off Road, embora não tão extremo para nossos veículos altos e com pneus de lama, mas foi um belo fechamento para TAC 2017. Em breve esta estrada será uma grande piçarra, assim que deixarem de tirar madeira na região. Cerca de 19:00hs estávamos em Uruará, finalizando assim mais uma TAC Amazônia, agora era seguir em direção as nossas casas e a equipe de apoio para a TAC Lençóis, cinco dias de aventuras pelos charcos Maranhenses e dunas dos Pequenos Lençóis. Em 2018 tem mais TAC Amazônia de 08 a 23 de Março, programe sua vida para uma grande aventura.

img-20170428-wa0030 img-20170428-wa0025 img-20170427-wa0102 img-20170427-wa0074

COMPARTILHAR: